NOVIDADES

E qualquer desatenção...


 Para ler ao som de Gota D`Água, 
de Chico Buarque


A disputa pela nossa atenção muitas vezes (quase sempre) acaba tornando a velha e boa conversa em acessório. Você pode conviver por anos com uma pessoa e não saber absolutamente nada sobre a profundidade de sua alma (nem se tem alma). A gente acaba conhecendo, no máximo ou no mínimo, a alma dos posts ou memes que desaparecem dias depois da nossa timeline. E nem são imagens particulares, exclusivas. São reproduções, cópias. Recebemos as imagens prontas, nos identificamos e compartilhamos. Sem demora. Se não compartilhar para 10 almas, não receberá uma graça. A graça está na matemática do compartilhar.

O livro Olhai os lírios do campo, de Érico Verissimo. Publicado em 1938 e em 2017 é tão hoje. Uma história de um homem que se transformou após a morte de sua amada Olívia. E hoje nem temos o trabalho de pensar em mudarmos após a morte de alguma pessoa querida. Importa mais quantos likes eu terei do que a despedida. Uma relação que me chamou muita atenção no livro foi: a amizade entre o personagem principal, o jovem médico Eugênio, e o velho médico Seixas. Uma amizade cultivada em diálogos, em inúmeros diálogos e tempo dedicado ao outro sem cobrança. E o mais impressionante: diálogos atentos. Os dois amigos quase nunca concordavam em nenhum assunto. Hoje é imperiosa a concordância, o monólogo de dois. Eles eram opostos: Seixas era pessimista e Eugênio, otimista. E como eles se ouviam, se compreendiam nas diferenças. Sem medo de dar atenção ao ouvir. Ninguém parece atento ao que a gente fala e também não estamos tão atentos ao que o outro fala. Alguém começa a nos contar alguma coisa e já queremos interrompê-lo com uma história muito muito muito mais interessante (segundo nosso olhar centrado na barriga) ou ficamos mexendo no celular enquanto a outra pessoa simplesmente fala. Não estávamos ali na conversa.

Há também aqueles que não deixam ninguém participar da conversa. A pessoa fala fala fala fala e quando você tenta dizer algo é atropelado pela correnteza de palavras da boca pra fora. Nessas ocasiões (bendito celular!!!) melhor ficar mexendo nas redes sociais mesmo. Já que não parece interessado em nos ter como participante da conversa. 

Agora em um mundo no qual há amigos que não queiram te escutar a internet pode ser uma maneira, ainda que fria e informal, de ao menos termos a sensação de ser escutado. Enquanto, ficamos sonhando com uma amizade como de Eugênio e Seixas que saíam pelas ruas conversando sobre o que os atormentava sem medo de mostrar a alma ferida e feroz um ao outro continuamos disputados por excesso de tempo perdido sem viver nada com ninguém.