NOVIDADES

No reino da infância



Para ler ao som do Bola de Meia, Bola de Gude
de Milton Nascimento


Acordar no dia das crianças era despertar em uma mistura de expectativas e aprendizagens. Expectativas com os presentes que ganharíamos. Aprendizagens porque o que a gente ganhava nunca seria o que esperado. Esperávamos por videogames, carros motorizados, bonecas enormes, bicicletas. A realidade era: uma caixa de bombom, um chinelo novo, uma blusa. E a gente ensaiava alegria. Os amiguinhos ganhavam tudo que esperavam e saíam à rua de peito estufado a nos humilhar com seus presentes.
Bom que era também dia de Nossa Senhora Aparecida que não deixava nossa tristeza e humilhação se prolongarem por todo o dia, pois os foguetes logo davam início as rezas, a cavalgada pela pracinha, a procissão. 
Havia orações e choros de agradecimentos e tristezas à santa.
Com a blusinha nova, o chinelo novo, a gente ia seguindo a procissão de Aparecida até sua igrejinha, pelo chão de terra vermelha. O povo descalço. As senhoras de velas nas mãos e a gente com o olhar fixo no futuro. Pedindo a Aparecida que a gente crescesse logo para tudo aquilo se transformar e aquela vida humilde passar.
O futuro, presente hoje, nos ensina que a ingenuidade daquelas lágrimas e da simplicidade de nossos presentes foram as melhores coisas da infância. 
Adélia Prado no poema "Ensinamento" diz com uma clareza o que estou tentando dizer:

Minha mãe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.